Não esqueça de lembrar

Conhecer. Abrir uma porta até então fechada. O toque repentino na maçaneta mostra a inquietude da alma. Talvez fosse o momento de deixar tudo para trás. Entregar-se ao novo. Penetrar as entranhas do desconhecido e fazer de tudo o que passou, passado. Os amigos estavam lá, prontos a abrir a rede caso a queda fosse verdadeira. Tentou não olhar para baixo. Sabia que se o fizesse, cairia de vez no abismo de idéias e sonhos. Tão perturbador quanto o som da própria voz, era o estranho desejo de ser. Precisava falar. Não sabia como. Quis olhar para trás. Proibiu-se. Tinha que ser forte e encarar os fatos. Estava perdida. Na incessante busca do outro, pensou encantar-se. Estava enganada. Era só mais um sentimento comum. Enganava-se com certa frequente estupidez. Declarou a verdade. Não o queria. Sentou-se na beira do precipício. Sentiu o vento tocando a face. Respirou fundo. Pensou em tudo o que passou. Pensou em nada. Lembrou-se da alegria de estar ali quando jovem. Lembrou-se das ligações esdruxulas às três da manhã. Sorriu. Olhou para baixo. Deveria seguir. Sentiu a liberdade esfaqueando o peito quente. Levantou. Seguiu para campo aberto. Deitou no gramado orvalhado. Fingiu estar só. Não estava. Havia mais alguém. Alguém em que poderia confiar mesmo sem ver. Alguém que a completava sem conhecer, que a tocava sem estar perto. Trilhavam juntos caminhos distintos. Tocaram a maçaneta. Entraram. O passo estava dado. Da porta em diante, seguiriam separados. Buscaram conhecer-se um pouco mais. Não havia mais portas. Acenaram docemente. Despediram-se como poucos: sem palavras, sem toques, sem lágrimas. Apenas o sentimento mudo e surdo. Seguiram cada qual seu caminho. Sem olhar para trás. Contando somente com o pensamento, com a memória viva daqueles que deixaram para trás. (Tia do Café)

Para mim, atualmente, companheirismo e lealdade são meio sinônimos de felicidade. Meus amigos são muito fortes e muito profundos, são amigos de fé, para quem eu posso telefonar às cinco da manhã e dizer: ‘olha, estou querendo me matar, o que eu faço?’ Eles me dão liberdade para isso, não tenho relações rápidas, quer dizer, tenho porque todo mundo tem,mas procuro sempre aprofundar. E isso é felicidade, você poder contar com os outros, se sentir cuidado, protegido. Dei esse exemplo meio barra pesada de me matar… esquece, posso ligar para ver o nascer do sol no Ibirapuera às cinco da manhã. Já fiz isso, inclusive.”

– Caio Fernando de Abreu

 

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Published in: on outubro 13, 2008 at 4:39 pm  Comments (1)  

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  1. Não sei se abriria essa maçaneta.
    De verdade..

    Excelente texto tia, beijos


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